O Cérebro e seu Sistema de Recompensa

Saturday, 26 de September de 2020
  Vivenciar situações de dor e desconforto não é algo cobiçado, mas sentir prazer e satisfação é praticamente unânime. E, é essa sensação de prazer que faz alguém motivado a comer uma sobremesa depois do almoço, encontrar os amigos e, até  sentir-se bem indo à academia em plena manhã de domingo. Isso acontece por causa do chamado sistema de recompensa cerebral que abrange regiões formadas por circuitos neuronais, onde são processadas as informações relacionadas às sensações de prazer e satisfação. 

                          
  É um sistema evolutivamente antigo, presente em diversas espécies, sobretudo em mamíferos; bem ilustrado em situações em que o animal precisava de motivações concretas para buscar alimento ou sexo, ações consideradas recompensadoras e que garantiriam a sobrevivência da espécie.

E quais regiões compreendem o sistema de recompensa?



  Estudos realizados com EEG e fMRI mostram que as áreas ativadas durante uma situação prazerosa compreendem o núcleo accumbens (NAc), área tegmental ventral (VTA) 一relacionada à produção de dopamina一 e córtex pré frontal, relacionado à atenção e tomada de decisão. O sistema de recompensa compreende também estruturas do sistema límbico, relacionado às emoções e experiências prévias do indivíduo, que tem como principais áreas: hipocampo, hipotálamo e amígdala. Além disso, em situações prazerosas há ativação do giro do cíngulo, que é uma área capaz de gerar sensação de felicidade e aumento da atenção e como consequência, a ativação de memória. 

O sistema de recompensa pode ser ativado naturalmente por meio de estímulos ambientais agradáveis, interação social, sexo, alimentos [2], música, experiências religiosas e espirituais. Como vimos no blog A religião ativa as mesmas áreas cerebrais que o amor, sexo e drogas, ocorre uma espécie de modulação e "os sentimentos experimentados pelos religiosos são justificados como decorrentes da ativação dos circuitos cerebrais de recompensa, que controlam a capacidade de sentir prazer e, incluem desde sensações de euforia a insights de integração intelectual consigo e com outros indivíduos.”

 O fato é que, esses tipos sentimentos de recompensa e pertencimento, podem ser também experimentados em estados de euforia induzidos por drogas e no uso de dispositivos eletrônicos, como os smartphones. Como já foi dito no blog Manipular dispositivos touch-screen pode alterar circuitos cerebrais da atenção e cognição e recompensa “interagir com um smartphone touch-screen de forma ativa, ativa as áreas cerebrais relacionadas a uma recompensa (similar ao vício em drogas ou satisfação ao alimentar-se)”.

 
                

Retirado de [2] 


  E em se tratando de alimentação, o que acontece quando você come o seu chocolate preferido é uma sensação de satisfação e felicidade (não é mesmo?). O seu cérebro registra que aquilo é algo agradável e prazeroso, considerando-o prontamente como sendo um comportamento memorável que deverá ser repetido em outro momento.


Hmmm.... Posso comer mais um?  

                               
   

  Como o seu cérebro já sabe que comer chocolate é algo agradável, as áreas do sistema de recompensa “pedem” para que você repita essa ação, especialmente a área tegmental ventral.

  Quando a informação chega ao córtex pré-frontal, ocorre a modulação. É nessa região que a racionalidade assume a situação e ocorre a tomada de decisão para definir se você realmente deve comer a guloseima. 

  A partir disso, é iniciada a luta entre a razão (córtex pré-frontal) e pela emoção (sistema límbico, área tegmental ventral). Se a emoção ganhar o duelo, o comportamento prazeroso será repetido, posteriormente a via será fortalecida e se tornará potencialmente mais difícil de abdicar e resistir às sensações de prazer.

  Se pensar em interromper o ciclo e parar de comer o doce, seu cérebro não vai imediatamente deixar de considerar o chocolate prazeroso, mas pode fazer descobertas de outros alimentos que também geram sensações de prazer proporcionais, gerando outras possibilidades de ativação do sistema de recompensa. 

Assim, é notório que o prazer e a satisfação são derivados de ações/atividades  e que se relacionam à relevância comportamental atribuída a elas. Há quem ache uma fruta mais prazerosa que um chocolate? Certamente! Tudo dependerá da relevância atribuída e da memória relacionada àquilo. 


REFERÊNCIAS

[1] Breiter, Hans C., and Bruce R. Rosen. "Functional magnetic resonance imaging of brain reward circuitry in the human." Annals of the New York Academy of Sciences 877.1 (1999): 523-547.

[2] García‐García, Isabel, et al. "Reward processing in obesity, substance addiction and non‐substance addiction." Obesity Reviews 15.11 (2014): 853-869.





                      

 

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Autor:

Larissa Nascimento

Prof

larissa@brainsupport.co









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