Luvas biônicas: a alegria de um pianista ao voltar aos palcos
Thursday, 20 de January de 2022
A música está presente na nossa rotina diariamente e, continuamente, é associada a momentos marcantes. A verdade é que não dá pra viver sem música! Estima-se que ouvimos por volta de 4 horas de música durante todo o dia. Como já vimos no Blog Música e Neurociência: Porque a música está relacionada com as nossas emoções, a música ativa inúmeras regiões cerebrais, sendo considerada um fator que favorece a neuroplasticidadecerebral.
Essa neuroplasticidade consiste na capacidade do cérebro em se moldar e ativar regiões de acordo com os tipos de estímulos recebidos.
Para tanto, técnicas de ressonância magnética estrutural e funcional (MRI e fMRI) são utilizadas para estudar os efeitos da música sobre o sistema nervoso nos seres humanos. E os achados mostram que a música é capaz de ativar estruturas cerebrais ─ corpo caloso, cerebelo e o córtex motor─ , que apresentam volumes diferentes em músicos de alto desempenho, quando comparados a indivíduos não músicos.
A música também esteve sempre presente na vida do maestro João Carlos Martins, desde a infância. Considerado um dos grandes e renomados intérpretes da música de Bach, ícone mundial, o pianista e maestro clássico brasileiro se aposentou no ano passado. A aposentadoria veio após ele ter sido submetido a 24 cirurgias, ao longos dos anos, para tentar minimizar/ conter as dores oriundas de uma doença degenerativa e uma série de acidentes que o impediam de tocar o seu instrumento preferido. Essas tantas limitações levaram Martins a deixar o piano, mas ainda assim, seguir trabalhando com música, se tornando maestro desde o início dos anos 2000.
Mas no início deste ano, para a alegria do João Carlos e dos seus milhares de fãs, as limitações ─ que o permitiam apenas tocar lentamente com os polegares e com os dedos indicadores─ foram reduzidas.
Ao final de um concerto no Theatro Municipal de São Paulo, o maestro recebeu de um fã um par de "luvas biônicas" (órteses), que o permitem um melhor posicionamento dos dedos e mais amplitude de movimento, favorecendo o tocar do piano.
*Biônico:
relativo ou pertencente à biônica, ou obtido por tal processo.
cujo desempenho biológico é reforçado por meio da eletrônica ou da cibernética.
"Depois que perdi minhas ferramentas, minhas mãos e não pude tocar piano, foi como se houvesse um cadáver dentro do meu peito."
A melhoria na qualidade de vida que se observa nas pessoas com alguma perda de função é possível através de uma campo de estudo chamado Neuroengenharia. Trata-se da ciência que une os conhecimentos da neurociência (neuroanatomia e neurofisiologia) e da neuroengenharia (programação e tecnologia) a fim de solucionar problemas associados à limitações neurológicas.
Esse tipo de órtese do maestro representa o avanço da tecnologia aplicada à recuperação de alguma função antes perdida. Mas não somente isso, representa a emoção de um artista em voltar a tocar piano com as duas mãos, depois de 22 anos de limitações e muitas dores.
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REFERÊNCIAS
NORMAN-HAIGNERE, Sam; KANWISHER, Nancy G.; MCDERMOTT, Josh H. Distinct cortical pathways for music and speech revealed by hypothesis-free voxel decomposition. Neuron, v. 88, n. 6, p. 1281-1296, 2015.
ROGENMOSER, Lars et al. Keeping brains young with making music. Brain Structure and Function, v. 223, n. 1, p. 297-305, 2018.
Lebedev, M. A.; Nicolelis, M, A, L. Brain-machine Interfaces: From Basic Science To Neuroprostheses And Neurorehabilitation. American Physiological Society, 2017.