Leitura, educação e progresso social

Tuesday, 24 de March de 2020
   Olá, tudo bem? Como tem passado? Espero que você e aqueles ao seu redor continuem se cuidando, dentro de casa… E para aliviar um pouco a atenção do corona vírus vou te apresentar a leitura sobre uma aspecto diferente… o sócio, econômico e político.

   Já sabemos que o hábito de ler pode trazer grandes mudanças na vida de uma pessoa. Benefícios como o enriquecimento do vocabulário, melhora da capacidade de concentração e da capacidade cognitiva, no desenvolvimento e fortalecimento do senso crítico e da imaginação, na interação social e por aí vai. Resumidamente, ler só traz benefícios pessoais...Será que apenas pessoais?
 



   O estudo intitulado “Achievement gap: Socioeconomic status affects reading development beyond language and cognition in children facing poverty.” mostra um cenário diferente relacionada ao hábito da leitura. Essa pesquisa é investigou o desenvolvimento de crianças ciganas bilíngues e monolíngues durante seus primeiros anos de escolaridade e comparou o desenvolvimento com outras crianças não ciganas que viviam nas mesmas comunidades. Para isso, foram utilizados um conjunto de indicadores capazes de medir aspectos do contexto socioeconômico (Dolen et al. 2019).

   Segundo os autores a maior parte dos estudos focados no status socioeconômico e no desenvolvimento da leitura ocorre com amostra que possuem uma certa equidade econômica, o que termina limitando o conhecimento real sobre a correlação entre essas duas esferas. No caso da população cigana, uma grande lacuna no campo educacional foi identificada, promovida pelo afastamento dos jovens da vida acadêmica. Tal fato acabou por desencadear a falta de habilidades básicas de alfabetização em 50% da amostra pesquisada (Baucal et al., 2006). 





   O estudo de Dolen, exibe um cenário similar ao de Baucal. A amostra investigada teve, dentre outas formas de avaliação, as palavras lidas (A) e as palavras não lidas (B) contabilizadas. De acordo com as comparações realizadas pelos pesquisadores, os dois grupos ciganos (em azul e vermelho) apresentaram habilidades iniciais de leitura mais baixas e com crescimento mais lento quando comparados com o grupo não-cigano (em verde). Os dois grupos ciganos não diferiram entre si no status inicial nem no crescimento, conforme exibe a figura abaixo.

 

 
  
   E como deve ser no cenário brasileiro? Afinal, a maior parte da nossa população vive matando um leão a cada dia… Na verdade, segundo Carla Jiménez, do El País, esse leão caminha em nossas vidas em grupo. Ela descreve o impacto das crises financeiras mais atuais na vida do brasileiro e pontua duas condições muito importantes: o aumento da pobreza extrema e o afastamento dos jovens de suas atividades acadêmica. Tais pontos estão conectados, já que o distanciamento acadêmico é gerado para auxiliar a família no ambiente de trabalho (El País, 2019). Resumindo, entre o estudar e o comer, prevalece o mais importante… óbvio, né? 


   Dessa forma ocorre a manutenção de um ciclo vicioso e nocivo em que o status social é absurdamente desigual e que favorece profundamente aqueles que tiveram a oportunidade de seguir adiante em seus estudos e obtiveram algum tipo de apoio aos seus projetos de vida. Oi?? Eu explico.

 



   Se eu não tenho o domínio mínimo da linguagem usada ao meu redor, eu não tenho como participar de forma ativa da dinâmica política da minha região. Empréstimos e financiamentos serão conquistados com maior dificuldade… se forem conquistados, concorda? Se eu não consigo dimensionar a importância das medidas educativas e sanitárias, como vou compreender e exigir mudanças econômicas e a políticas na região em que vivi? Como não tenho a habilidade de questionar por falta de comunicação básica, aceito sem questionar tudo o que me é apresentado… Não há o senso crítico e, então o comportamento de manada se consolidada com maior força. Complicado pensar nisso, não é verdade? Será que algo pode ser feito?

  Acredito que muito pode ser feito, mas primeiramente é preciso ser empático com o próximo, afinal aqueles que conseguem dimensionar a impotância da leitura e da educação no contexto global são os mais aptos a exigir, guiar e promover mudanças políticas, facilitando a equidade social.


  Tais mudanças que serão a médio e a longo prazo podem ser iniciadas pelo incentivo a leitura por meio de programas em instituições de ensino (Miller et al., 2010) e também na comunidade, em paralelo com a oferta gratuita de livros e grupos de discussão, por exemplo. O importante é compreender a leitura e a educação não são apenas formas de diversão e de transmissão de conhecimento técnico, é uma ferramenta para a promoção de alterações sociais e políticas por meio do desenvolvimento das habilidades cognitivas e de participação social do indivíduo.




 

Referências:

Baucal, A. D. (2006). Development of mathematical and language literacy among Roma students. Psihologija, 39(2), 207–227.

Dolean, D., Melby-Lervåg, M., Tincas, I., Damsa, C., & Lervåg, A. (2019). Achievement gap: Socioeconomic status affects reading development beyond language and cognition in children facing poverty. Learning and Instruction, 63, 101218. 

https://brasil.elpais.com/brasil/2019/11/06/politica/1573049315_913111.html

Miller, M. A., Fenty, N., Scott, T. M., & Park, K. L. (2011). An examination of social skills instruction in the context of small-group reading. Remedial and Special Education32(5), 371-381.




Autor:

Marcela de Angelis

Brain Support Consultant

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