fNIRS pode oferecer um marcador biológico para Depressão

Monday, 29 de June de 2020

Em um estudo publicado em 16 de junho de 2020 na revista Nature Neuroscience, um grupo de pesquisadores liderado por Syeda Fabeha Husain, da Universidade Nacional de Singapura, utilizou de uma técnica que tem chamado o interesse de muitos pesquisadores na neurociência, o fNIRS, associada a uma tarefa de fluência verbal (em inglês) para estudar como a atividade cerebral de indivíduos com MDD (Transtorno de Depressão Maior, na sigla em inglês) se diferenciava de pacientes controle saudáveis.

A depressão maior é um transtorno do humor de abrangência global, que promove severo impacto na vida das pessoas e na economia mundial. Um evento agudo de MDD é caracterizado pela falta de humor e anedonia, que duram praticamente o dia inteiro, durante um período de pelo menos duas semanas. Esses sintomas costumam vir acompanhados de diversas outras manifestações físicas e psicológicas, que variam muito de indivíduo para indivíduo, o que torna seu diagnóstico um tanto complicado. O diagnóstico atual carece de medidas quantitativas, mas as evidências estão crescendo a favor do uso de técnicas de imageamento cerebral, como fNIRS e fMRI, na busca de marcadores para o transtorno.

O fNIRS é capaz de produzir imagens do encéfalo de alta resolução espacial por conta da propriedade única que a luz próxima ao espectro infravermelho tem de penetrar tecidos e ser absorvida preferencialmente por hemoglobinas. Essa absorção depende de uma ligação com o oxigênio, permitindo que dispositivos fNIRS monitorem a oxi-hemoglobina e a desoxi-hemoglobina, relacionada à hemodinâmica requerida pela atividade neural em uma dada região do cérebro durante uma tarefa. Em outras palavras, a atividade cerebral disparada por uma tarefa pode ser medida através da variação na oxi- e desoxi-hemoglobina, uma vez que oxigênio é consumido pelos neurônios para que o processamento da informação seja feito e a tarefa realizada. Essa atividade é diferente para diferentes tarefas, que recrutam diferentes áreas do cérebro.

Este processo é muito similar à ressonância magnética funcional (fMRI), mas possui diferenças que conferem tanto vantagens, quanto limitações à técnica. Por um lado, o NIRS é um equipamento que não demanda a submissão dos participantes a um ambiente claustrofóbico como as máquinas de MRI, além de ser mais barato e com um setup relativamente simples de implementar em laboratório. Por outro lado, a luz empregada para realizar as imagens do tecido cerebral não conseguem alcançar estruturas subcorticais. No entanto, ainda assim o fNIRS é de extrema utilidade para estudos cognitivos ou para avaliação neurológica de pacientes com transtornos psiquiátricos. Se você quer saber mais sobre essa técnica e suas aplicações, você pode encontrar mais artigos nossos aqui.

Voltando ao estudo de Syeda e seus colaboradores, foi observado que a atividade de regiões frontais e temporais do encéfalo era menor nos indivíduos com MDD do que nos controles saudáveis, durante uma tarefa de fluência verbal. Achados similares já haviam sido publicados por outros grupos de pesquisa, com testes de fluência verbal em Japonês e Chinês. Assim, o grupo providenciou uma validação intercultural para o método de avaliação de MDD utilizando fNIRS.

Ainda assim, há espaço para muitas pesquisas na área. Como que essas diferenças na atividade cerebral estão correlacionadas com outras tarefas cognitivas? Como que o grau de depressão dos indivíduos influencia o desempenho nestas tarefas e como está relacionado com a atividade medida pelo NIRS? Ou ainda, como que essa atividade é modulada em pacientes com MDD enquanto estes realizam tratamento com diferentes antidepressivos? Para estudar esta última questão, um pesquisador poderia utilizar a técnica para acompanhar o desempenho em uma tarefa de fluência verbal – em português para aproveitar e validar o método para nossa cultura – de pacientes com grau severo de depressão, enquanto submete os diferentes grupos a diferentes fármacos como tratamento. Isso pode trazer insight sobre os diferentes mecanismos de ação de antidepressivos disponíveis no mercado.

 

Fonte: Husain, S., Yu, R., Tang, T. et al. Validating a functional near-infrared spectroscopy diagnostic paradigm for Major Depressive Disorder. Sci Rep 10, 9740 (2020). https://doi.org/10.1038/s41598-020-66784-2

Autor:

Nicolas Cesar Laur

Candidates

nicolascesar@brainsupport.co









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