Estimulação magnética transcraniana, EEG microstates e dependência química

Monday, 11 de December de 2023
 
     A dependência química é um problema de saúde pública global, caracterizado por alterações neurobiológicas substanciais. A investigação de terapias inovadoras para seu tratamento é crucial. A estimulação magnética transcraniana repetitiva (EMTr) surgiu como uma técnica promissora na modulação da atividade cerebral e tem sido explorada em diversos distúrbios neuropsiquiátricos, incluindo a dependência de substâncias. Aqui vamos discutir um pouco como essa ferramenta pode ajudar na recuperação desses indivíduos através da modulação do EEG microstates.
 
    A dependência química abrange uma variedade de substâncias viciantes, incluindo, mas não se limitando a, heroína, cocaína, metanfetaminas e opiáceos. Estudos relacionados à dependência de drogas em geral mostraram que a EMTr pode influenciar a conectividade neural e modificar padrões de atividade cerebral, modulando áreas relacionadas ao vício e à tomada de decisões, podendo assim influenciar os padrões de atividade cerebral associados à dependência química. Isso sugere que a EMTr poderia ser uma técnica promissora como parte de um tratamento integrado para ajudar a modular os circuitos neurais alterados na dependência.  
 
     Nesse contexto, uma ferramenta que se demonstrou promissora para análise objetiva da atividade elétrica cerebral são os microestados baseados na eletroencefalografia (EEG microstates). Os EEG MicroStates são detectados por meio de técnicas de análise de dados de eletroencefalograma (EEG) que permitem identificar momentos de atividade elétrica cerebral altamente coerente e estacionária em um curto período de tempo (geralmente cerca de 100 ms). Vários estudos têm mostrado que os padrões de EEG MicroStates estão relacionados a diferentes aspectos da cognição, incluindo atenção, memória, percepção visual e processamento emocional. Os padrões de EEG MicroStates são influenciados pelas oscilações cerebrais e podem ser usados para estudar a interação entre diferentes frequências cerebrais, eles são mais modulados por oscilações cerebrais na faixa de frequência alfa, por exemplo. Além disso, O EEG MicroStates geralmente possui características topográficas de conexão entre áreas específicas classificadas em 4 classes de microestado: A (frontal direito para posterior esquerdo), B (frontal esquerdo para posterior direito), C (frontal para occipital), D (predominantemente frontal e medial a ligeiramente menos atividade occipital do que a classe C) (Imagem abaixo).
   
      Um estudo realizou a análise objetiva de EEG microstates para medir a eficácia da estimulação magnética transcraniana em indivíduos com dependência de heroína. Nesse contexto, o trabalho observou mudanças dinâmicas significativas na atividade cerebral em indivíduos com dependência de heroína após estimulação magnética intermitente theta-burst (iTBS) sobre o córtex pré-frontal dorsolateral esquerdo. Foi observado aumentos significativos na duração, ocorrência e contribuição do microestado classe A após a intervenção do iTBS. A precisão da classificação K-means atingiu 81,5%. A figura abaixo mostra os mapas topográficos das quatro classes de microestados no grupo com dependência de heroína pré-teste (linha superior) e pós-teste (segunda linha) e grupo controle saudáveis (linha inferior), onde as diferentes cores representam polaridades diferentes. Dessa forma, isso demonstra que o EEG microestates é um indicador de melhoria eficaz em pacientes com dependência de heroína tratados com iTBS.
 



Fonte: Ding, Xiaobin, et al.(2023)
 
     O entendimento mais aprofundado dos efeitos da EMTr nos microestados eletroencefalográficos em pacientes com dependência química pode abrir portas para intervenções mais direcionadas e personalizadas. Isso pode contribuir para estratégias de tratamento mais eficazes e adaptadas às necessidades individuais dos pacientes com dependência química. Estudos com mais específicos e controlados utilizando outros tipos de substâncias químicas são essenciais para elucidar completamente os efeitos da EMTr nos microestados eletroencefalográficos em pacientes com dependência química de forma mais ampla.



Referências
 
Ding, Xiaobin, et al. "The effect of repetitive transcranial magnetic stimulation on electroencephalography microstates of patients with heroin-addiction." Psychiatry Research: Neuroimaging 329 (2023): 111594.
 
Rajkumar, Ravichandran, et al. "Excitatory–inhibitory balance within EEG microstates and resting-state fMRI networks: assessed via simultaneous trimodal PET–MR–EEG imaging." Translational Psychiatry 11.1 (2021): 60.
 
Khanna, A., Pascual-Leone, A., Michel, C. M., & Farzan, F. (2015). Microstates in resting-state EEG: current status and future directions. Neuroscience and Biobehavioral Reviews, 49, 105-113.
 
Buzsáki, G., & Mizuseki, K. (2014). The log-dynamic brain: how skewed distributions affect network operations. Nature Reviews Neuroscience, 15(4), 264-278.
 

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Autor:

Rodrigo Oliveira

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