De que maneira a neuropolítica pode nos ajudar a melhorar nossa democracia?

Saturday, 01 de August de 2020

“Três coisas não se discutem: futebol, religião e política”. Você provavelmente já escutou essa frase em algum momento da sua vida. Ela nos passa a ideia de que esses três assuntos são tão pessoais e irreconciliáveis que seria impossível discuti-los sem perder a amizade ou entrar em uma briga feia. Entretanto, não seria o diálogo racional entre iguais e visando sempre o bem comum, a base de nossa concepção de democracia representativa e suas instituições democráticas? Segundo estudos em neuropolítica, sim e não. A deliberação é elemento essencial da política democrática, mas não o único. 


Domingo Garcia-Marzá, em seu artigo “neuropolítica y democracia”, busca explicar de que maneira a interdisciplinaridade entre ciências sociais e neurologia pode ajudar a melhorar um problema grave que assola nossa democracia: a insatisfação. Muitas pessoas não gostam de conversar sobre política, por diversos motivos. Dentre eles, achar que política traz discórdia, ou que não é relevante, que não lhe diz respeito, ou que todos os políticos são corruptos e que a democracia não os representa como cidadãos. “Os desequilíbrios do sujeito em relação ao sistema político, que consistem em depressão, ansiedade, compulsões, etc, ao invés de serem entendidos como reações de impotência frente a determinadas condições materiais de vida claramente injustas, se convertem em desequilíbrios da mecânica eletroquímica do cérebro”, segundo Domingo. Esse sentimento de descontentamento, quando analisado pela neurologia, pode ser um grande aliado da ciência política. 

Ao contrário do tipo ideal do que seria a democracia representativa, muitas vezes nossas decisões e argumentações não são baseadas em critérios racionais. Um simples debate em torno de um assunto polêmico pode levar à discussões acaloradas e sem embasamento lógico. Entender como e porquê agimos como agimos é crucial para tentarmos melhorar nossas instituições políticas. As instituições da sociedade civil (como por exemplo escolas, as associações comunitárias e, a nível mais profundo, o núcleo familiar) cumprem o papel de socializar o indivíduo, ou seja, são ambientes de aprendizagem nos quais serão formadas suas crenças, percepções e emoções. São nesses ambientes que decidimos como e em quem depositar nossa confiança. 

A imagem é dividida em dois planos. No primeiro, está escrito 23h:59 e três Brainllys (mascote BrainSuppor) estão lado a lado. Uma delas diz "vamos debater racionalmente!". Logo abaixo, no segundo plano, está escrito 00:00 e as três Brainllys estão brigando.

Para conseguirmos que as pessoas participem ativamente da democracia e confiem em suas instituições, faz-se necessário investir na expansão e melhoramento desses ambientes de aprendizagem, tão importantes para a consolidação da nossa concepção de cidadania e de valores democráticos como, por exemplo, o respeito mútuo à pluralidade de ideias e às instituições democráticas, a solidariedade, a compaixão, etc. A neuropolítica propõe que a democracia não seja vista como apenas um espaço de debate de ideias e argumentos racionais entre pares iguais, mas que seja levado em consideração, também, que o nosso cérebro político é um cérebro emocional, sem nunca desconsiderar que sua formação é fortemente influenciada pelo meio no qual estamos inseridos.

Referência:

GARCÍA-MARZÁ, Domingo (2013). "Neuropolítica y democracia: un diálogo necesario". Δαι´μων. Revista Internacional de Filosofía, nº 59, 171-182.


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Autor:

Brida Mayi Sarpa Sousa

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