Como a microbiota influencia o cérebro?

Thursday, 14 de November de 2019

Você já ouviu falar em microbiota? Sabe qual a relação da microbiota com o funcionamento do cérebro?
 
Já se sabe a muito tempo que situações de ansiedade ou estresse podem ocasionar desconfortos abdominais, como as famosas “borboletas no estômago” quando se está apaixonado por alguém ou dores antes de uma apresentação importante. Estudos recentes vêm mostrando que existe uma sofisticada e complexa relação entre o cérebro e o sistema gastrointestinal [1].  Dessa forma, é importante definirmos o conceito de microbiota e como ela influencia nosso cérebro.
 
O que é microbiota?
 
O termo “microbiota” se refere ao conjunto de microorganismos num dado ambiente. Portanto, a microbiota humana se refere aos microorganismos que residem no organismo humano e que trazem benefícios mútuos, pois cumprem diversas funções como: estimular o sistema imunológico, decompor compostos alimentares com potenciais de toxicidade e sintetizar algumas vitaminas e aminoácidos que não seriam sintetizados no corpo humano. [2, 3].
 
Um indivíduo adulto possui cerca de trilhões de microrganismos e essa microbiota está relacionada a uma série de processos fundamentais à sobrevivência como a prevenção contra microrganismos patogênicos [4]. A comunicação entre o cérebro e o intestino acontece de maneira bidirecional: o comportamento altera a flora intestinal, e esta altera o comportamento [1]. Dessa forma, a população de microrganismos intestinais pode afetar o bem-estar emocional e o surgimento de transtornos psicológicos e psiquiátricos.

 

Então, qual a relação da microbiota com os transtornos comportamentais?
 
Estudos recentes têm demonstrado que o desequilíbrio da microbiota intestinal pode causar uma série de doenças, não apenas ligadas ao sistema digestório; ela também pode fazer parte da etiologia de transtornos do neurodesenvolvimento [4].
 
Pessoas com depressão apresentam flora intestinal diferente em relação às que não possuem depressão. Em um estudo realizado por um grupo de pesquisadores chineses, camundongos que não tinham microbiota intestinal (germ free) receberam transplante fecal de camundongos deprimidos, e o que se observou é que eles passaram a apresentar os sintomas, dessa forma foi possível inferir que a microbioma intestinal pode ter um papel causal no desenvolvimento de comportamentos do tipo depressivo [5].
 
Em 2015, foi realizada uma análise com mais de 100 mil crianças. Notou-se que as crianças diagnosticadas com transtorno do espectro autista (TEA) apresentaram mais problemas intestinais, tais como constipação, diarreia, intolerância ou alergias [6]

Microbiota e a sociabilidade
 
A sociabilidade pode facilitar resultados mutuamente benéficos, como divisão do trabalho, assistência cooperativa e aumento da imunidade, mas a sociabilidade também pode promover resultados negativos, incluindo agressão e coerção. Evidências sugerem que a microbiota que reside no sistema gastrointestinal, podem influenciar o neurodesenvolvimento e a programação de comportamentos sociais em diversas espécies animais. A sociabilidade compreende uma gama complexa de comportamentos interativos que podem ser cooperativos, neutros ou antagônicos. Em todo o reino animal, o nível de sociabilidade que um animal exibe é variável; alguns são altamente sociais (por exemplo, primatas, cupins e abelhas), vivendo em comunidades cooperativas, enquanto outros têm uma existência principalmente solitária (por exemplo, ursos) [7]. 
 
A relação entre hospedeiro e micróbios sugere que as interações hospedeiro-microbiota podem ter influenciado a evolução dos comportamentos sociais. Embora essas conexões entre bactérias intestinais e distúrbios do desenvolvimento neurológico sejam atualmente uma área intrigante de pesquisa, qualquer papel da microbiota na evolução dos comportamentos sociais em animais não substitui outros fatores contribuintes. Em vez disso, adiciona uma perspectiva adicional sobre como esses comportamentos complexos surgiram [7].


Compreender essa relação entre a microbiota e o comportamento social é importante tanto na esfera da evolução da fisiologia e comportamento do cérebro, mas também em termos de fornecer uma melhor compreensão sobre a identificação de caminhos para o tratamento de desordens sociais em humanos.



Referências

[1] OLIVEIRA, Sophia La Banca de; MORAES, Eduardo Cruz. A microbiota intestinal influencia o comportamento. 2018. Disponível em: <http://www.comciencia.br/microbiota-intestinal-influencia-o-comportamento/>.

[2] GONÇALVES, M. A. P. Microbiota – implicações na imunidade e no metabolismo. 2014. 53p. Dissertação (Mestrado em Ciências Farmacêuticas). Universidade Fernando Pessoa, Porto, Portugal, 2014. Disponível em: <http://bdigital.ufp.pt/bitstream/10284/4516/1/PPG_21951.pdf>

[3] FÁBIO, André Cabette. O que é microbiota e por que ela tem sido foco de pesquisas. 2018. Disponível em: <https://www.nexojornal.com.br/expresso/2018/11/14/O-que-é-microbiota-e-por-que-ela-tem-sido-foco-de-pesquisas>.

[4] LOUZADA, Fernando. Alterações na composição de microrganismos podem estar associadas à gênese do transtorno do espectro autista. 2019. Disponível em: <https://www.revistaeducacao.com.br/neurodesenvolvimento-autista/>.

[5] ZHENG, P et al. Gut microbiome remodeling induces depressive-like behaviors through a pathway mediated by the host’s metabolism. Molecular Psychiatry, [s.l.], v. 21, n. 6, p.786-796, 12 abr. 2016. Springer Nature. http://dx.doi.org/10.1038/mp.2016.44.

[6] BRESNAHAN, Michaeline et al. Association of Maternal Report of Infant and Toddler Gastrointestinal Symptoms With Autism. Jama Psychiatry, [s.l.], v. 72, n. 5, p.466-483, 1 maio 2015. American Medical Association (AMA). http://dx.doi.org/10.1001/jamapsychiatry.2014.3034.

[7] SHERWIN, Eoin et al. Microbiota and the social brain. Science, [s.l.], v. 366, n. 6465, p.1-15, 31 out. 2019. American Association for the Advancement of Science (AAAS). http://dx.doi.org/10.1126/science.aar2016.

 
Autor: Eric Rodrigues








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